Henry Ford nasceu a 30 de Julho de 1863, em Dearborn, no Michigan, e faleceu a 7 de Abril de 1947. Entre estas duas datas construiu-se uma das biografias mais influentes e controversas da história económica moderna. Fundador da Ford Motor Company, Ford não foi apenas um industrial de sucesso; foi um arquitecto de um novo modelo de sociedade industrial.
A sua grande ambição nunca foi fabricar automóveis de luxo para elites endinheiradas. Pelo contrário, acreditava que o automóvel devia ser um instrumento de mobilidade acessível ao cidadão comum. Em 1908 lançou o célebre Ford Model T, veículo simples, resistente e relativamente barato, que viria a transformar radicalmente o quotidiano americano. Mais do que um produto, o Model T tornou-se símbolo de uma nova era: a da democratização do consumo.
Contudo, a verdadeira revolução de Ford não foi o automóvel em si, mas a forma de o produzir. Em 1913 introduziu a linha de montagem móvel, reduzindo drasticamente o tempo necessário para fabricar um veículo. Nascia o “fordismo”: produção em massa, padronização, tarefas fragmentadas e eficiência quase mecânica. O trabalhador deixava de acompanhar o produto do início ao fim; tornava-se peça de uma engrenagem maior.
É aqui que a figura de Ford merece reflexão crítica. Se, por um lado, pagou salários inéditos (os famosos cinco dólares por dia em 1914) e reduziu a jornada de trabalho, contribuindo para consolidar a classe média industrial, por outro reforçou um modelo de trabalho repetitivo e alienante. A sua visão era pragmática: trabalhadores bem pagos seriam também consumidores. Era uma lógica económica inteligente, mas que dava pouca atenção ao lado humano do trabalho.
No plano político e ideológico, Ford revelou-se ainda mais complexo. Foi um defensor do pacifismo antes da Primeira Guerra Mundial e chegou a candidatar-se ao Senado. No entanto, a sua aquisição do jornal The Dearborn Independent trouxe-lhe uma sombra duradoura. Através desse órgão publicou textos de teor antissemita, mais tarde compilados sob o título The International Jew. O génio industrial convivia com posições ideológicas profundamente questionáveis.
Um dos episódios mais singulares da sua trajectória foi a criação da Fordlândia, no estado do Pará, Brasil (1928). A cidade foi concebida como uma comunidade-modelo destinada à produção de borracha para abastecer a indústria automóvel da Ford, numa época em que a borracha era dominada pelo Sudeste Asiático.
Ford procurou replicar no coração da Amazónia um ideal americano de organização social: casas padronizadas, hospital, escola, campo de golfe e regras rígidas de conduta, incluindo proibição de álcool e imposição de hábitos alimentares norte-americanos. Contudo, a iniciativa revelou-se um fracasso.
A plantação sofreu com pragas, doenças nas seringueiras e falta de conhecimento sobre o ecossistema amazónico. Houve revoltas laborais contra as regras impostas pela administração americana. Além disso, o aparecimento da borracha sintética reduziu a importância do projecto. Em 1945, a Ford vendeu a área ao governo brasileiro, encerrando o ambicioso empreendimento.
Henry Ford deixou um legado ambivalente. Por um lado, revolucionou a produção industrial, tornou o automóvel um bem de consumo de massas e moldou o capitalismo do século XX. Por outro, a rigidez do seu modelo mecanicista de gestão, as posições ideológicas controversas e a utopia da Fordlândia City revelam a sua visão desmedida.