Numa pesquisa publicada no ‘Historical Social Research’, as investigadoras Farida Jalalzai e Meg Rincker demonstraram que um em cada dez líderes mundiais continuam uma “tradição” familiar. Segundo as pesquisadoras pertencer a uma família política é uma vantagem significativa, que fornece reconhecimento ao nome do candidato, facilitando o acesso a aliados e a recursos para assumir uma carreira política.
América do Norte e Europa são os continentes em que o fenômeno ocorreu com maior frequência, com 25 e 13%, respetivamente, de herança do poder por presidentes e primeiros-ministros. Na América Latina, 11 dos 88 líderes estudados possuíam alguma ligação com chefes-de-estado antecessores. Na África, apenas 9% possuem essa característica.
No distante Azerbaijão, o Presidente, Ilham Aliyev, nomeava a sua mulher, Mehribam Aliyeva, primeira vice-presidente do país. O Presidente Aliyev já tinha sucedido, no cargo, ao seu falecido pai, Heydar Aliyev.
Merece destaque a saga dos Kennedy: JFK, já licenciado em Direito, por Harvard, consegue, aos 29 anos, o seu primeiro cargo político, sendo eleito congressista em representação do Massachusetts. Ganha eleições sucessivas. Sem dificuldade, é designado candidato presidencial pelo Partido Democrata em 1960. Não é o único Kennedy a avançar para a Casa Branca, coadjuvado por Robert (Bobby) Kennedy, seu irmão mais novo e principal conselheiro, que nomeará procurador-geral.
A passagem de testemunho dos Bush George W. Bush foi o segundo do clã eleito Presidente dos EUA (entre 2001 e 2009). O seu pai, George H. W. Bush, foi vice presidente de Ronald Reagan e Presidente entre 1989 e 1993.
Os Estados Unidos da América não são um caso raro entre as repúblicas que tiveram pais e filhos no mais alto cargo. O atual chefe do Governo do vizinho Canadá, Justin Trudeau, também pertence a uma família de políticos, retomando um cargo que já fora, nos anos 70, do seu pai, Pierre Elliott Trudeau. Nestes casos, que são democracias, os titulares dos cargos políticos passam pelo processo em eleições democráticas.
O subcontinente indiano deu ao mundo duas famílias poderosas, amadas e odiadas nos seus países, tocadas pela glória e pela tragédia, um pouco ao modo dos Kennedy, mas no feminino. No Paquistão, os Bhutto; na Índia, os Nerhu-Gandhi (que nada têm que ver com o ativista pela independência, Mahatma Gandhi).
Indira Gandhi teve a difícil missão de suceder a um dos grandes políticos do século XX, mas soube construir a sua própria lenda, liderando os não alinhados e fazendo um forte contraponto às grandes potências no período da Guerra Fria.
Aquele que será, talvez, o mais popular Presidente da República da democracia, Marcelo Rebelo de Sousa é filho de um governante do tempo da ditadura, Baltasar Rebelo de Sousa foi subsecretário de Estado de Salazar e ministro de Marcelo Caetano. Ainda em Portugal, João Lopes Soares foi uma referência nos tempos da I República, tendo exercido o cargo de governador civil. Foi um exemplo para o filho Mário. Este foi um dos mais destacados políticos de Portugal no século XX, tendo chegado a primeiro-ministro e a Presidente da República. João Soares, neto do primeiro João Soares, foi deputado e presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Kennedys, Gandhis e Bhuttos assassinados, Bushs triunfantes, Clintons derrotados, Kims intocáveis, Hassads perseguidos ou Soares emergentes, as linhagens politicas, continuam, a marcar a política, ainda hoje.
Artigo em Kriol: https://cidadao.cv/familias-politikas-na-munde/