O projecto Future Migration as Present Fact (FUMI) introduz uma inversão conceptual que desafia a forma como, durante décadas, olhámos para a mobilidade humana.
A investigação migratória tem-se concentrado sobretudo em quantificar fluxos, caracterizar perfis de quem parte ou analisar impactos económicos das remessas. No entanto, o FUMI, criado em 2018 com financiamento do Conselho Europeu de Investigação, propõe algo mais desafiador:
… considerar que a migração começa muito antes da deslocação física. Começa no momento em que surge como possibilidade imaginada, quando alguém pondera partir, sonha com novos horizontes ou simplesmente mantém aberta a ideia de que o futuro pode acontecer noutro lugar. É esta deslocação do foco (da migração realizada para a migração pensada) que marca a profundidade e pertinência do projecto Future Migration as Present Fact.
Ao tratar a imaginação como facto social, o FUMI coloca-se na vanguarda de um debate que ultrapassa fronteiras académicas. A pergunta essencial não é quem emigra, mas como as aspirações migratórias moldam comportamentos no presente.
A simples expectativa de partir pode influenciar escolhas educativas, investimentos pessoais, decisões familiares e até atitudes políticas. Para muitos jovens, o futuro é um espaço em aberto onde a mobilidade funciona como promessa ou escapatória, e essa projeção simbólica condiciona o modo como vivem o presente. Ao reconhecer isto, o FUMI demonstra que a migração não é apenas movimento; é também narrativa, desejo, tensão e projecto de vida.
Mas a força desta abordagem reside também no seu método. O projecto combina inquéritos estatísticos de grande escala com trabalho qualitativo aprofundado: observação, entrevistas, diálogos comunitários e análises socioculturais. Esta combinação permite perceber nuances impossíveis de captar apenas com números. Por que razão alguém deseja partir? De que forma os discursos de mobilidade circulam em casas, escolas, redes sociais? Como influenciam a autoestima, a visão de oportunidade ou a avaliação do país onde se vive? Estas perguntas revelam que a migração imaginada é, muitas vezes, mais poderosa do que a migração efetivamente concretizada.
Num mundo onde a mobilidade é cada vez mais condicionada por fronteiras, burocracias e desigualdades, a imaginação migratória adquire peso adicional. Não se trata apenas de querer sair; trata-se de avaliar se é possível, se vale a pena, se compensa o risco, se resiste às incertezas.
Em vez de olhar apenas para fluxos migratórios reais, o projecto propõe olhar para as “aspirações migratórias” como motores de comportamentos, influenciando desde o investimento na educação até à forma como os jovens constroem a sua identidade e planificam o futuro. Trata-se, portanto, de uma mudança importante na forma de analisar mobilidade: mais do que contar saídas, importa perceber como a ideia de partir afeta quem fica.
Cabo Verde tornou-se um dos principais laboratórios empíricos desta abordagem. Entre Outubro e Novembro de 2022, o FUMI realizou, em São Vicente, um dos mais aprofundados inquéritos sobre aspirações migratórias feitos no arquipélago. Não se tratou apenas de medir quantos querem emigrar; tratou-se sim de compreender porquê, para onde, com que recursos, com que medos e que alternativas equacionam caso a migração falhe. É este mergulho no campo das possibilidades (e não apenas no campo das decisões concretas) que distingue o projecto.
Ora, ao tratar as aspirações como factos sociais presentes, o FUMI ajuda-nos a olhar para Cabo Verde para além das estatísticas de emigração. Mostra que a mobilidade é, antes de tudo, um estado mental colectivo, uma gramática de futuro. Compreender, pois, essa gramática é fundamental para pensar políticas públicas, projectos de desenvolvimento e, sobretudo, para reconhecer a complexidade com que os jovens constroem hoje o seu lugar no mundo.
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