Artigo de Opinião: Uma Nova Ordem Mundial

O mundo político-militar saído da II Guerra Mundial consagrava duas superpotências – os USA e a URSS com a sua “corte” de aliados, quase obrigatoriamente, aliados. Após a construção do Muro de Berlim, em 1961, a divisão entre os dois blocos “ganhou” uma materialidade simbólica.

A URSS, hoje representada na Rússia, mas que na altura incluía a Ucrânia, Bielorrússia, Moldova, Geórgia, Arménia, estados bálticos e repúblicas asiáticas (hoje independentes) em que estendia a sua liderança pela RDA (Alemanha Oriental), Polónia, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e Hungria. Esta imensa dimensão territorial, agrupada no Pacto de Varsóvia, organizava-se dentro de um modelo político, económico e social apelidado de Socialismo Real, uma forma de aplicação da filosofia política do socialismo na sua versão marxista-leninista.

O outro bloco era liderado, de modo afirmativo, pelos Estados Unidos da América e incluía os países europeus de toda a Europa Ocidental, mais os países anglófonos e estados como o Japão, Coreia do Sul, Filipinas resultantes da vitória militar no Pacífico Sul dos USA na II Guerra Mundial. Estamos a falar do grupo inicial que fundou a Nato, em abril de 1949, e que teve sucessivas ondas de alargamento até aos nossos dias, afastado das águas do Atlântico Norte.

Ao longo do período que vai do fim da II Guerra Mundial, 1945, até ao final da década de oitenta, as duas superpotências desenvolveram uma crescente intervenção política e económica nos restantes continentes, recorrendo a presença militar em algumas vezes, com destaque para Africa, Médio Oriente e América do Sul.

O desenvolvimento económico dos USA face a evolução da URSS foi mais eficiente e gerou uma enorme diferença nos recursos e instrumentos económicos e, mais importante, uma população alinhada com o modelo político da democracia e a opção económica do capitalismo, mesmo existindo diversas variações na sua aplicação no conjunto de aliados dos USA.

O sucesso do modelo de sociedade e de estado corporizado nos USA e países aliados como a Inglaterra, a França, a Suécia, a Dinamarca e de forma nuclear na RFA (Alemanha Ocidental) geraram uma aspiração à população residente no outro lado, na “Cortina de Ferro”, a querer viver de modo semelhante. Foram milhares os alemães orientais que fugiram para Ocidente, como exemplo.

Com a queda do muro de Berlim e dos regimes do Pacto de Varsóvia, iniciou-se uma época de economia liberal, livre mercado e circulação de bens e valores, expressa na OMC – Organização Mundial do Comércio, a qual a China (o outro grande estado silencioso de inspiração socialista) aderiu no virar do século XX para o século XXI.

Durante a década de noventa e primeira década deste século, os USA assumiram a liderança isolada do mundo, como sendo a única Superpotência. Os atentados às Torres Gémeas em 2002 marcam o início de uma liderança ‘mais musculada’ e interventiva dos Estados Unidos da América. Naturalmente, por um conjunto complexo de razões, “em que o papel internacional dos USA estava em causa e precisava de segurança”. 

Esta nova realidade indiciava a contestação futura da super liderança norte-americana, o que foi confirmado nos anos seguintes, tendo como episódios marcantes a “Depressão e Crises das Dividas – 2008 a 2014”; a pandemia COVID19 e, essencialmente, a “aparição” da China ao grande jogo da economia mundial. Entramos numa “Nova Era de competição e conflito” entre os USA e a China, verdadeiros gigantes num mundo de pequenos e médios estados.

Os indicadores económicos, comercias, sociais evidenciam esta dimensão que implica uma feroz, e cada vez menos pacífica, competição por recursos naturais, tecnologia, recursos financeiros e rotas de abastecimento. A guerra na Ucrânia, parecendo central,  deve ser entendida como uma realidade dolorosa, mas menor comparando com esta “dança de afirmação” da poderosa superpotência norte americana e da desafiante superpotência China.

A diferença militar entre ambas sendo significativa vai perdendo eficácia quando não estamos num cenário clássico de guerra. Aqui chegados, os próximos anos, começando neste, podem “mudar os dados”, pois as eleições nos USA, a crise económica e política na Europa reforçam as aspirações chinesas. A guerra da Ucrânia pode ajudar-nos a perceber a evolução futura de Taiwan, o grande marco para a afirmação plena da Nova China nas próximas décadas.

Ora, as duas superpotências USA e China parecem atravessar momentos de mudança. A instabilidade e a dificuldade em estabelecer consensos internos nos USA pode vir a influenciar, a médio prazo, a evolução desta “competição” que esperamos nunca assuma expressão de conflito militar aberto, como aconteceu com a anterior ordem em que os estados principais em conflito politico eram os USA e a URSS.

Rafael Vasconcelos

Gestor Empresas, Mestre em Marketing pela 'University of Creative Arts', Manager na 'Vasconcelos Lopes, Lda.', Autor do Livro 'MARKETING & INOVAÇÃO NAS AUTARQUIAS'. Iniciou a sua carreira no Retail Business tendo sido o responsável pela concepção, implementação e gestão da primeira rede de supermercados do País (FRAGATA) e tem vindo a colaborar em projectos a instituições desenvolvendo modelos “out of the box” de Gestão e Marketing.

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