Entrevista: Professora Eduarda

Com o artigo de hoje pretendemos dedicar uma justa e merecida atenção a uma figura que muito contribuiu e ainda contribui para a projeção de cabo Verde no palco internacional. E não o fazemos como gesto de generosidade, mas antes como demonstração da necessidade que se impõe de o mundo empresarial, além de outras entidades públicas e privadas, entenderem definitivamente que o apoio a atividades promotoras de desenvolvimento e projeção nacional são do seu inteiro interesse – porque situados entre os principais beneficiários –, pelo que apoiá-las não seria nenhum gesto de samaritanismo, mas antes, uma forma inteligente de investimento.

A personalidade de nossa eleição é, desta vez, a Professora Maria Eduarda Neves Almeida Vasconcelos, mais comummente conhecida como Professora Eduarda. Reconhecida entre amigos, conhecidos, e antigos alunos como apaixonada pela profissão, um ser humano íntegro, leal, compassivo e resiliente, mas também, aguerrido, persistente, rigoroso e amante da disciplina.

Filha de Manuel Duarte Almeida (destinto futebolista mindelense, conhecido como Manel Djinha) e de Amândia Maria Neves Almeida, nasceu em São Vicente em 23 de outubro de 1952. A sua forte tendência a partilhar, mesmo o conhecimento, orientá-la-ia para a atividade docente e, a cultura desportiva encarregar-se-ia de fixá-la na disciplina de educação física. Juntando-se a isso a sua paixão pela música e pela dança, facilmente se compreenderá o seu tão forte envolvimento com a Ginástica Rítmica. Iniciou atividade como professora em 1974, após formação em Portugal para onde retornaria para uma pós-graduação em 1998. Apesar de se encontrar aposentada da atividade docente desde 2008, continua a dedicar-se com o mesmo empenho à acusa do desporto, da ginástica rítmica em particular, como formadora e membro da Academia Olímpica de Cabo verde da qual já foi presidente.

Podemos com segurança afirmar que ninguém fez mais pela ginástica rítmica em S. Vicente do que a Prof.ª Eduarda Vasconcelos. Trata-se de uma devoção que em muito concorreu para que o nome de Cabo Verde surja hoje dignamente presente num vasto leque de eventos desportivos internacionais.

Seu entusiasmo pela área iniciou cedo, num período em que a ginástica rítmica em Cabo Verde não era cultivada nem valorizada na devida proporção. Foi em S. Vicente que Maria Eduarda começou a construir, pacientemente, um espaço para a modalidade, sendo que, pelo menos nesta ilha, esta disciplina seria inexistente ou ainda em estado embrionário, não fosse por seu empenho.

Num trabalho conjunto, esta e uma amiga e colega de profissão (da Praia), a professora Manuela Vieira, oficializaram a disciplina, formaram atletas, promoveram e participaram de encontros, forma granjeando amizade e respeito de colegas, parceiros e entidades, desbravando caminho que hoje conduziria, mesmo num contexto de exiguidade de meios, a uma realidade de que se orgulha toda uma nação e o próprio continente, sobretudo se considerarmos tratar-se de uma modalidade tida tradicionalmente como reservada a países ricos ou desenvolvidos, atendendo ao elevado grau de tecnicidade e custo dos equipamento e instalações que lhe estão associados.

Mas, da sua carreira, o que se nota mais motivar Eduarda Vasconcelos, não é tanto estar na origem do crescimento da modalidade ou o prestígio e respeito que angariou a nível nacional ou internacional. Mas sim, como ela mesma confirma, a sua devoção à causa do desporto e da modalidade! Nunca foi motivada por interesses materiais ou pela busca de autopromoção, mas sim por amar o desporto, amar lecionar e participar na formação de bons cidadãos, encaminhando-os na vida pessoal, intelectual e socioprofissional.

A professora Eduarda teve a amabilidade de nos conceder uma entrevista cujo teor abaixo transcrevemos:

  • P – Que motivações impulsionaram a escolha da profissão de professora? E porquê Educação Física?

R Filha de homem do desporto, logo, recebo uma educação desportiva em casa; escolho ser professora porque sempre gostei de partilhar; e Educação física, pois tinha aptidão para o desporto.

  • P – Como foram os seus primeiros passos na Ginástica Rítmica e o que a fez acreditar na possibilidade de esta ter sucesso?

R Durante o meu curso de E.F. tive a ginástica no meu currículo e gostava. Assim, apliquei- me e dediquei-me muito, principalmente quando se tratava de Ginástica Rítmica. Fiz parte sempre das exibições coreográficas e frequentava aula especializada de dança.

  • P – Porque é visivelmente de paixão que se trata, como explica essa sua paixão pela Ginástica Rítmica?

R Sim. É na verdade uma paixão. Gosto de todas as modalidades desportivas e as entendo, mas a Ginástica Rítmica me fascina. Como disse, vem desde o tempo de estudante de E.F., numa altura em que era feita ao som do piano, de forma leve.

  • P – Fale-nos um pouco da História da Ginástica Rítmica em Cabo Verde, S. Vicente em Particular.

R A Ginástica Rítmica entra em Cabo Verde pelas mãos da Professora Manuela Vieira, na Praia, e eu em S. Vicente, apos um grande trabalho que se fez no campo da Fontinha pelo 10º aniversario da Independência em ginástica rítmica de exibição, com a participação de alunos das escolas, feito que teve um grande impacto. Logo de seguida, através do Ministério de Educação, eu ter ido à Portugal assistir a um evento gímnico, os Sportinguíadas, que, por sinal, era coordenado pelo Prof. Reis Pinto que fora meu professor de ginástica durante o curso no ex- INEF em Lisboa. Assim, após observar esse belíssimo trabalho no Pavilhão Carlos Lopes, de regresso à Cabo Verde, em conversa com a Manuela chegamos a acordo no sentido de formalizar e submeter esse projeto ao Governo. Fizemo-lo e foi aceite. Já se fazia ginástica rítmica de apresentação, mas a vertente competitiva é que introduzimos então nas duas ilhas (Praia e S.V.).

Através do Ministério do Desporto fizemos um curso de monitores em S. Vicente e começamos a trabalhar. Em janeiro de 1988 fizemos a 1ª exibição pública no campo da Shell e, em julho de 1990, realizamos o 1º Campeonato Nacional, tudo em S. Vicente. Entretanto, os trabalhos foram evoluindo e começamos a participar em saraus e competições nacionais e internacionais, na Praia, no Senegal em Portugal e Canárias.

Mindelgina, desde o dia da sua primeira apresentação, em 30 janeiro de 1988, que lhe ficou o nome e nunca mais parou. Tem materializado projetos nacionais e internacionais de alto nível, como Gymnaestradas, Eurogym, Festival Blume nas Canárias, Sportinguíadas, Portugalgym, Festivais gímnicos de Bombarral e S. Pedro do Sul coadjuvada sempre pelos belíssimos trabalhos sociais apresentados ao público mindelense, por convites personalizados e em épocas festivas como Carnaval, Natal, dia da Criança e o GymTalentos muito apreciados e aplaudidos por todos.

  • P – Além dos benefícios para a saúde física e mental dos praticantes existe o lado espetacular da modalidade. E sob o ponto de vista social, que benefícios entende poder-se extrair da modalidade?

R – Sim. Tem os seus benefícios quanto à saúde, mas mais no que tange a socialização, a motivação extrínseca de fazer algo alegre e com prazer, demonstrar talento e pertence a uma agremiação que dá orgulho. Ser feliz e ativa.

  • P – Quais os maiores atrativos dessa modalidade desportiva para crianças e adolescentes?

R – O maior atrativo é começarem do zero e ao fim de três meses já conseguirem fazer acrobacias piruetas, rodas, enfim, dominar a disciplina e participar nas exibições.

  • P – Qual a melhor idade para se iniciar na modalidade?

R – Por experiência vivida, o início deve ser pelos 5/6 anos, a coincidir com a entrada na escola.

  • P – O cabo-verdiano é, por natureza, um povo com ritmo. Essas características conferem vantagens na formação de atletas na modalidade?

R – Sim, e muito, pois o ritmo, a dança, é o ponto forte deste trabalho, aliado aos movimentos corporais que vão compor a coreografia com os instrumentos.

  • P – Tempos já houve em que era evidente uma certa resistência ou até rejeição da modalidade, porque conotada como desporto de elite. Acha que é uma posição que ainda prevalece?

R – Nunca senti isso. Em S. Vicente a ginástica, neste caso rítmica, foi sempre aberta a todos, de inclusão mesmo. Trabalho nosso.

  • P – Acha possível popularizar ainda mais essa modalidade desportiva?

R – Sim é possível, não com a Ginástica Rítmica, mas com a Ginástica para Todos (G.P.T), pois com essa disciplina massifica-se mesmo.

  • P – Quais os caminhos que a professora indicaria àqueles que equacionam fazer da Ginástica Rítmica um projeto de vida?

R – Até pode ser. Ter esta base, mas procurando o além-mar treinando, participando em clubes internacionais, fazer curso de gestores, treinadores, juízes, designers gímnicos, etc.

  • P – Desde quando integra o Comité Olímpico Cabo-Verdiano.

R – Estou no C.O.C.V., ou melhor, na Academia Olímpica, desde 2015. Fui Vice-Presidente, Presidente em Exercício e agora sou o 1º Vice-Presidente entre 6 vice-presidentes.

  • P – Como avalia o esforço dos governantes, da Federação Cabo-verdiana de Ginástica e do Comité Olímpico Nacional no sentido da valorização e expansão da modalidade?

R – A avaliação que faço é que o trabalho, desde 1987, tem sido feito arduamente. O desenvolvimento da Ginástica Rítmica em Cabo Verde surgiu paralelamente com o Comité Olímpico de Cabo Verde. Sobre essa cumplicidade, basta dizer que a Ginástica Rítmica já esteve quatro vezes nos Jogos Olímpicos.

  • P – Acha que foram as boas prestações que deram visibilidade à modalidade, alertando, assim, para a sua importância, ou entende terem sido os apoios concedidos que impulsionaram essa visibilidade?

R – Sim, foram as boas e sinceras prestações, a forma disciplinada de chamar a si para haver credibilidade e respeito.

  • P – Tratando-se de uma atividade que, além do benefício social, pode contribuir para maior visibilidade da ilha, como classifica o envolvimento da autarquia no projeto, mais concretamente em termos de apoio à modalidade?

R – Concretamente em São Vicente a autarquia não tira proveito deste grande trabalho que se faz. Ou melhor, para mim, nem sequer prestam atenção.

  • P – Como descreve o estado da modalidade em Cabo Verde?

R – A Ginástica R., enquanto modalidade, conquistou o seu lugar no pódio. Assim como as outras, tem tudo para dar certo, faltando-lhe incentivos.

  • P – Na sua perspetiva, em que estádio devia encontra-se a modalidade neste momento?

R – Devia estar em todas as ilhas. É um dos fracassos. As escolas deviam popularizar pelo menos três disciplinas: Ginástica Rítmica, Ginástica para Todos e Ginástica Artística.

  • P – Que sugestões aconselham a sua longa e reconhecida experiência para maior projeção e sucesso da modalidade, tanto a nível nacional como internacional?

R – Sugeriria que se criassem infraestruturas próprias para treino e preparação técnica; que se disponibilizassem financiamento para aquisição de equipamento e material de trabalho; que haja uma maior movimentação internacional, além da nacional.

  • P – Alguma vez pensou em desistir?

R – Nunca!!! Este trabalho é uma cascata!!

  • P – Qual é a parte mais gratificante da sua ligação com esse projeto?

R – São todos estes anos, desde agosto/set. de 1987 que se fez o 1º curso de monitores de Ginástica Rítmica em S. Vicente a granjear amizades, tanto regionais como nacionais e internacionais. Este trabalho extravasou fronteiras e temos levado Cabo Verde ao mundo com os campeonatos africanos, campeonatos do mundo, Jogos Olímpicos, Universíadas, Eurogym, Sportinguíadas, festival nas Canárias, enfim, sempre em contacto com ginastas do mundo!

Um bem-haja à Prof.ª Eduarda pelo seu contributo para o desenvolvimento da nossa comunidade !

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